sábado, 14 de fevereiro de 2009

Amazonas - parte 2

Heis-me de volta.
Depois de chegar a Tabatinga andei a procura de forma como proseguir para Iquitos, ja dentro do Peru. Tabatinga, tal como tinha referido faz fronteira terrestre com Leticia, Colombia, e com Santa Rosa, Peru, do outro lado do rio.
Entao, depois de no lado brasileiro ter obtido genericamente informacoes sobre os barcos que subiam o rio, fui ate a Policia Federal do Brasil, para que me carimbassem a saida do pais. Assim foi. Depois enfiei-me num pequeno barco e atravessei para Santa Rosa. Ai queria carimbar o passaporte com a entrada no Peru, mas nao estava ninguem na emigracao. Uma vez que os barcos para Iquitos partiam de Santa Rosa la fui aprofundar as condicoes dos mesmos. Regressei ao lado brasileiro, de onde ja tinha oficialmente saido, e ainda fiquei a dormir ai mais uma noite. No dia seguinte entao e que volto a Santa Rosa e finalmente consigo o carimbo que preciso. Compro o bilhete para o barco do dia seguinte. Sai as 4h da manha hora brasileira, 3h hora do Peru.
Esta viagem foi feita num barco rapido e foi extremamente desagradavel. A comecar pela hora da partida, depois porque dentro do barco vai um barril de 200 litros de gasolina para alimentar o enorme motor e e um pivete la dentro que ainda nao tinhamos saido ja eu estava enjoado!!! Depois porque o barco era bastante pequeno, o que nao permitia andar de um lado para o outro. Baloicava bastante o que impossibilitava a leitura, fazia muito barulho e vibracao o que dificultava muito o dormir (ainda consegui passar pelas brasas no inicio da viagem, mas depois revelou-se impossivel). Finalmente, os bancos que eram iguais aqueles bancos corridos dos autocarros muito antigos (aqueles ainda do tempo da Rodoviaria Nacional, para quem se lembra), estavam tao gastos que estavamos sentados em cima de uma tabua de madeira, a certo ponto tive que colocar o colete salva-vidas debaixo do rabo para poder ter um pouco mais de conforto/amortecimento. 12 horas nesta brincadeira, nao foi facil. Chegado a Iquitos estava feito num oito.
De Iquitos, que para quem nao sabe e a maior cidade do mundo inacessivel por via terrestre, apenas aerea ou maritima (neste caso fluvial), estava a espera de encontrar outro barco rapido que, em mais 12 angustiantes horas, me levasse ate Yurimaguas, o local onde finalmente existe estrada. Acontece que nao, nao ha barcos rapidos de/para Iquitos para/de Yurimaguas. Mais uma vez tinha que tomar a unica solucao possivel, o barco lento.
Pois e, acontece e que o peruano nao e igual ao brasileiro e isso notou-se a diferentes niveis. Logo a comecar pelo barco, muito mais velho, com menos condicoes e mais sujo de uma forma geral, depois a organizacao da tripulacao tambem era bastante menor, com o processo de entrada e saida de mercadorias no barco ate a hora da partida (e ate mais do que isso pois estava previsto sairmos as 17h e acabamos por sair as 19h)...
Ao longo da viagem tambem me fui apercebendo de algumas diferencas entre os povos. Enquanto que o brasileiro fica quase o tempo todo da viagem a baloicar na sua rede, o peruano prefere andar pelo barco, se um lado para o outro. O peruano tambem e um tanto ou quanto mais porco, pois em diversas ocasioes vi homens e criancas a urinarem do bordo do barco, ao invez de utilizarem as casa de banho, situacao que apenas presenciei uma vez no lado brasileiro.
Fora isso:
  • a comida permanece semelhante (frango e arroz),
  • tambem ha baratas a bordo (e ate a minha almofada vao ter),
  • continua-se a ouvir musica em altos berros (embora o idioma altere),
  • as redes sao mais que muitas e de todas as cores (inclusive padrao camuflado),
  • os barcos continuam a avariar (esta deve ser destino, quando estavamos a sair de Lagunas, no dia da vespera de chegarmos a Yurimaguas, um tronco atravessou-se debaixo do helice e nem para a frente nem para tras. La vamos nos a deriva rio abaixo. Dentro do navio, panico geral, toda a gente a correr para ir buscar e colocar os coletes salva-vidas como se ja estivessemos todos condenados (acho que ainda cheguei a ouvir umas oracoes enquanto andava la de um lado para o outro) - nao percebo como e que a maioria destas pessoas que mora junto ao Amazonas, tem cheias anuais, e que mesmo assim nao sabe nadar! La poem uma lancha na agua e va de empurrar o barco para a margem. Chegados a margem querem prender o barco a umas arvores mas que estavam rodeadas de vegetacao alta. Pedem uma catana. Mais uma vez, nao percebo como e que um barco que navega no rio e quando esta sujeito a que aquilo aconteca com uma certa frequencia, ou ate por outros motivos mais sinistros, nao tenha uma catana a bordo. Pior, dos 200 passageiros que iam a bordo, parece que so o estrangeiro, o turista portugues e que tinha uma catana. Devem ter ficado a pensar que eu era algum tipo de Indiana Jones. La se amarrou o barco (esta e para os marinheiros que acompanham estes relatos) com o que? Cabos de nylon??? Nao que se podem romper. Isto e o Peru, aqui a navegacao e feita com cabos de aco!!! Daqueles bem macios e flexiveis, ideais para fazer um no em qualquer lado!!! Bem, e so gente doida. Depois de estabilizado o barco a atencao virou-se para os mergulhadores que estavam a tentar, com um cabo (este sim de nylon) da grossura de um atacador amarrar o tronco e puxa-lo. Claro esta que este cedeu. Qual a ideia seguinte? Ir buscar outro cabo de aco!!! E que nem oito nem oitenta, este nem dava para amarra o tronco. Bruxo! Finalmente la arranjaram outro cabo de nylon mais grosso e com que puderam puxar o desgracado do tronco de la para fora. Mais 2h de atraso, nao e nada),
  • o por do sol continua espectacular (acrescido que por estes dias estava lua cheia),
  • isto agora nao faz as vezes de um barco que vai para um sitio, agora e um barco que ha-de chegar a um sitio, e que pelo caminho faz todas as paragens necessarias nas mais pequenas povoacoes ao longo do rio, e mais um autocarro, em que os passageiros sobem e descem onde precisam, pela razao anterior, e como mencionei anteriormente, pelo facto de andarem mais de um lado para o outro, a verdade e que tambem o dormir era mais complicado: o barco era mais velho, a vibracao era maior, tal como o ruido do motor, as pessoas passavam constantemente ao pe do meu camarote, arrastanto com elas todo o tipo de mercadorias... uma alegria,
  • curioso verificar que os primeiros homosexuais explicitos que encontro no Peru se encontram embarcados. Tres cozinheiros no nosso barco e mais alguns noutro barco da mesma companhia. Seria um dos ultimos sitios em que esperava encontrar homosexuais. Nao esperava que andassem embarcados pois associo um barco a um ambiente bastante machista.

Chegaram ao fim os meus dias de passeio no Amazonas. Para quando o regresso? Sera que vai haver regresso???....

Isto e o aspecto do nosso barco a meio da tarde, notem que ja se tinham instalado alguns vendedores a frente do mesmo

Isto e o aspecto quando estavamos "quase" para irmos embora, toda a gende a espera de se poder despedir dos seus familiares

Este e o aspecto a hora da despedida. Notem do lado direito da foto os vendedores em cima de outro barco que estava encontado ao nosso. Vende-se tudo o que e preciso para a viagem: redes, cordas (o homem da t-shirt azul com umas coisas brancas ao ombro), papel higienico, pasta de dentes, pastilhas, refrigerantes, comida (claro!), laminas de barbear, tupperwares...

Um momento mais intimo partilhado sem pudor para toda a gente. Alias, ver as maes a dar de mamar em publico e bastante comum nestes paises, e tao natural como o proprio nascimento do filho, nao estamos ca com merdas!

Aparentemente antes havia a possibilidade de pagar em galinhas, arroz, bebidas alcoolicas, ou qualquer coisa que desse jeito na cozinha ou a tripulacao. Cortezia tambem e coisa do passado...

As minhas humildes instalacoes (sim, o cobertor cor-de-laranja e meu)

Passamos por uma localidade que, curiosamente, se chamava Lisboa. Olha, ja estou em casa, esta tao diferente...

Alguem alguma vez sonhou com uma cabana a beira rio? Qualidade de vida!!! Com um iate a porta e tudo!


Esta foi quando chegamos a Yurimaguas, e possivel ver a verdadeira abordagem e invasao que foi feita ao barco. Do lado esquerdo percebem-se pessoas a correr para virem para o barco. E o caos!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Amazonas

Acabo de regressar a civilizacao depois de 7 dias a subir (parte d)o rio Amazonas.

Sai de Manaus, a capital do estado brasileiro da Amazonia, na passada quarta-feira dia 28.

Depois de alguns preparativos iniciais, nomeadamente a compra de uma rede (para o que desse e viesse), comida e papel higienico, embarquei clandestino no Fenix, a minha casa flutuante para os proximos 7 dias. E porque clandestino?...
Estes ultimos tempos, tenho viajado com um casal, o Thomas (ingles) e a Tina (dinamarquesa), que conheci ainda no Panama, e que me disseram que tambem iam fazer esta viagem. Depois de alguns encontros e desencontros na Colombia e na Venezuela, reunimo-nos novamente em Santa Elena de Uarien (Venezuela) junto a fronteira com o Brasil. Depois fomos juntos ate Boavista e dai ate Manaus. Em Manaus andamos a pesquisar os barcos que subiam o rio ate Tabatinga, cidade brasileira onde agora me encontro e que faz fronteira com o Peru (para onde vou) e com a Colombia.

O barco para esta viagem tem duas opcoes: ou se vai numa rede, pendurado como um macaco no galho, ou entao aluga-se uma cabine (camarote) que tem ou uma cama de casal ou dois beliches, e uma casa de banho privada. Como eles sao namorados desde o inicio que decidiram alugar, para eles, no barco, uma cabine. Ate porque em termos de seguranca tambem e muito mais tranquilo ter um sitio onde guardar os items pessoais e valores, do que ter de os deixar junto a rede, onde qualquer pessoa pode ver e, eventualmente, alterar o conteudo.
Alugaram uma cabine por 700 reais. Este preco porque fomos ver o barco no domingo, e o pagamento foi feito logo na 2a. Se tivessem esperado mais um dia passava para os 800 reais. Para terem termo de comparacao, o preco de uma rede varia, mas nunca menos que os 300 ou os 320 reais no minimo.
O que combinei com o gerente do barco, e com eles tambem, foi o seguinte: para comecar deixo a mochila na cabine deles, para ficarem as coisas la guardadas, compro uma rede e penduro e, depois de iniciarmos a viagem, se houver lugares diponiveis nas cabines, muito bem, mudo para la, se estiver tudo vendido, terei que continuar na rede, de qualquer modo tinha sempre um sitio onde guardar os meus pertences em seguranca. Por isso digo que embarquei clandestino no barco, porque so depois de comecarmos a navegar e que comprei o meu bilhete.

Ja tinhamos passado por um local que se chama Encontro das Aguas, onde o rio Negro (de cor preta, parece cafe) que banha Manaus, se encontra com o rio Solimoes (de cor castanho, parece cafe com leite), o rio que iriamos subir ao longo destes 7 dias, quando voltei a ir falar com o gerente sobre este tema. Quanto ao Encontro das Aguas, neste sitio, as aguas dos dois rios nao se misturam imediatamente. Como tem densidades diferentes, os dois tipos de agua vao lado a lado ao longo de quilometros. Continuando, fui falar com o gerente e ele la me disse que havia uma cabine disponivel, e la negociamos os dois um preco razoavel.

Para mim foi muito bom pois tinha embarcado com febre e veio a revelar-se uma decisao correcta logo na primeira noite, em que acordei todo suado e tive que mudar de cama de um beliche para o outro. Imaginem ter que dormir numa rede molhada, com as costas encharcadas, ao frio e ainda por cima com febre... Alem disso, ter uma casa de banho privada, num barco com 250 pessoas a subir o Amazonas ao longo de 7 dias, nao tem preco! Por isso la desmontei a minha rede, sem nunca ter sido utilizada para dormir (embora me tenha sentado nela umas horas), e mudei-me para os meus novos aposentos.

Depois foi preciso reajustar o organismo para passar 7 dias fechado num barco, sem espaco para grandes actividades fisicas, com 3 refeicoes diarias (mais ou menos, depois explico melhor), e sem nada para fazer.
Regra geral, os dias foram passados a ler, escrever, ouvir musica e a contemplar o rio e as margens. Obviamente que nao se resumiu a isto: desde as refeicoes, ao falar com os passageiros e com membros da tripulacao, assistir as manobras de atracagem, embarque e desembarque de passageiros e cargas, ver golfinhos... houve tempo para muito.

A rotina diaria consistia em acordar e higienizar o corpo, e ir tomar o pequeno almoco. Como muitas vezes acordava tarde (as 8h, tardissimo....) muitas vezes ja tinham fechado a sala do pequeno almoco e tinha que ir a cozinha tentar arranjar alguma coisa para comer. Depois ia ler, ou escrever, ou ouvir musica, ou qualquer coisa que me entretesse ate ao almoco, servido a partir das 11h (e as vezes desde as 10h30, mas onde eu so chegava la para as 12h30), depois o mesmo: ler, escrever, ouvir, falar, observar... ate a hora do jantar, la para as 17h (embora muitas vezes comecasse as 16h30, e mais uma vez onde eu so chegava por volta das 18h). Depois do jantar era hora para ir ate a parte de cima do barco onde havia um pequeno bar e beber uma cerveja enquanto assistia ao por do sol e as maravilhosas tonalidades que ceu e nuvens assumiam no fim de tarde. Ler mais um pouco e ir dormir. Estava o dia ganho.

Quanto as refeicoes eram constituidas por:
Cafe-da-manha (pequeno almoco): cafe (ja com acucar), leite (ja com acucar) e depois, nos primeiros 3 dias houve pao, a partir dai e ate ao fim da viagem apenas houve bolachas salgadas que, exactamente por serem salgadas, nao sao muito boas de mergulhar no leite.
Almoco: umas vezes frango grelhado, uma vezes carne estufada, uma vez frango guisado, uma vez carne grelhada, uma vez feijoada, nunca peixe. O acompanhamento era sempre o mesmo: arroz, esparguete, feijao e farinha de milho grossa. Por vezes havia tambem salada a acompanhar a comida.
Jantar: umas vezes frango grelhado, umas vezes carne picada, duas vezes sopa que parecia do cozido (com massa e couves e carne e ossos e tudo numa agua de tonalidade duvidosa, mas saborosa). Os acompanhamentos eram os mesmos do almoco: arroz, feijao, esparguete e farinha grossa.
A comida era servida em self-service, cada um tirava o que queria.

O barco levava cerca de 250 passageiros, e apenas 5 turistas, eu, o ingles e a dinamarquesa e dois alemaes. Havia tambem 2 colombianos e uma peruana que voltava a casa, mas esses nao eram turistas. Tudo o resto eram brasileiros que viviam algures entre as duas cidades ou perto.

Chegamos a Tabatinga na terca feira as 3h30 da manha, como nem eu nem os outros queriamos sair do barco a essa hora, porque nao tinhamos onde ficar, acabamos por ir ate outro lugar onde o barco parou a seguir, Benjamin Constant, dai tivemos que apanhar uma lancha rapida de volta a Tabatinga, no fim da manha.

Curiosidades:
Em alguns sitios o barco nao para para as pessoas entrarem e sairem. O barco abranda, e depois ha uma lancha a motor que faz as vezes de taxi e transporta pessoas e bagagem para terra (so quando sao poucas pessoas).
Num dos portos uma pessoa saiu e ficou esquecida. Teve que contratar uma lancha para vir atras do barco e retomar a viagem.
Todas as mercadorias sao carregadas e descarregadas a mao, uma a uma, nao ha gruas nem monta-cargas.
Alguns barcos (nao o nosso) tambem fazem vendas pelas localidades onde vao passando, o que significa que se podem atrasar bastante. O nosso so tinha servico de frete, nao de vendas.
Maior parte dos passageiros a bordo sao familias, bastante das quais numerosas, e sempre com muitas criancas a correr por todo o lado.
Uma rede num mercado em Manaus custa entre os 15 e os 80 reais (esperem pagar mais uns 4 ou 5 pelas cordas para segurar a rede).
Estes marinheiros sao mesmo de agua doce. Nao sabem fazer nos. Acontece que ha muita coisa a flutuar nas aguas do rio, e muita materia vegetal, nomeadamente troncos de arvores (alguns enormes mesmo). De vez em quando o barco nao se devia a tempo e la ha um ou outro que bate no casco. Segunda feira a tarde, vespera de chegarmos, um tronco bateu no barco e danificou o cardan do veio do motor. O motor teve que ser desligado para se poder fazer a reparacao, mas estavamos em pleno rio. Entao la vai o bote a motor, com 2 la dentro e com o cabo de atracagem do barco (que por ser fluvial nao tem ancora) e tentam atar o barco a umas arvores. O cabo estica estica estica (ate perder toda a agua que tinha) e PAZ, o no que tinham feito escorrega e solta-se o cabo, e barco, da arvore. Continuamos a recuar, a descer o rio. Nova tentativa, vao apanhar a ponta do cabo e tentam ata-la novamente. Agora sem eu perceber muito bem porque o cabo solta-se de dentro do barco!?! Nem eu percebi como e que isto aconteceu. Terceira tentativa, vao outra vez buscar o cabo, atam-no mais uma vez, mas agora o barco ja tinha ganho alguma velocidade e mais uma vez o no e feito e mais uma vez o no escorrega... ta bonito. Por isso de momento desistem de amarrar o barco. Vamos entao a deriva por uma meia hora, no meio do rio, tal como se de um tronco gigante se tratasse. E olhem que iamos a uma velocidade apreciavel. Finalmente la o bote se coloca atras do barco e comeca a empurra-lo para uma das margens. Ai havia uma zona menos profunda em que o barco acaba por encalhar naturalmente, 2 saltam rapidamente e vao prender o barco e finalmente conseguem imobiliza-lo. Curiosidade tambem foi depois de solucionada a avaria, e desde que comecamos a andar novamente, demorarmos cerca de 15 minutos ate chegar ao local em que o motor parou e em que se tentou atar o barco pela primeira vez. Foi bastante tempo. Andamos muito para tras. Nao parece, mas a corrente e muito forte.
Ha muita muita agua no rio amazonas.
Ha muitas arvores tambem.
As araras fazem muito barulho e voam de forma atabalhoada.
Nao ha mosquitos no barco, repelente e desnecessario.
Como vamos com alguma velocidade ha sempre uma brisa (ou vento forte) a bordo. Quando paramos e que se nota o calor que esta!
Os escaravelhos voam muito e sao kamikazes.
Num dos dias a bordo celebrei o meu centesimo dia (100º) a viajar.
Ha cobertura de telemovel em alguns pontos da amazonia.
A agua em que os alimentos sao cozinhados, os pratos sao lavados e em que as pessoas tomam banho provem toda do mesmo sitio. Do rio. Tomar banho em agua castanha tem o seu que de especial.
A navegacao e feita dia e noite. A noite ha um holofote que ligam e desligam em curtos intervalos e que utilizam para se localizarem, verem o melhor sitio para passar (menos troncos, menos correntes, mais fundo).
O GPS existe, mas vai desligado o caminho todo.
A bordo de um barco tambem ha baratas.
Beber mais do que 8 cervejas numa noite pode dar mau resultado na manha do dia seguinte.

Este e o Fenix, e foi a minha casa por 7 dias
Panoramica geral dentro do convesO Encontro das Aguas entre os rios Negro e Solimoes

A sala das refeicoes
A Amazonia tem muitas arvores...
As fantasticas tonalidades que o ceu adquiria ao entardecer


Alguns dos ultimos passageiros a embarcar
Povoacoes ao longo do rio
O processo de carga e descarga

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Salto de Angel

Pois e... aproveitei estes dias para, a partir de Ciudad Bolivar, apanhar um aviao ate Canaima, para fazer uma excursao ao Salto del Angel, a queda de agua mais alta do mundo, com 979 metros de altura. Pouco depois de aterrarmos em Canaima, a povoacao que serve de base para esta expedicao, comecamos a subir o rio Churum. Foi um percurso muito bom. Subimos cerca de 2h no rio, rodeados apenas de floresta, e atravessamos diversos rapidos. Nota para a destreza dos barqueiros que, contra a corrente, tem que dar balanco suficiente ao barco e, no momento exacto em que o rio fica menos profundo e em que, por vezes, ate as rochas raspam no casco do barco, levantam o motor para evitar que a helice bata nelas. Ao fim dessas duas horas chegamos a Poza de la Felicidad. Almocamos. Depois continuamos a subir e eis que aparecem os primeiros Tepuys, planaltos de rocha, com paredes quase verticais que, no meio da selva e da savana, se elevam por 500 ou 1.000 metros acima do resto do terreno. Mais 1h30 a subir o rio e heis que, depois de uma curva no rio, o guia indica-nos o famoso, e ansiado, Salto del Angel! E ja mais tarde, do miradouro, e espectacular ver como a agua se precipita do topo do tepuy e se vaporiza com a queda para, mais tarde, voltar a formar uma cascata e um rio. Dai descemos por outro trilho ate uma lagoa formada pela agua do Salto, onde tomamos banho. Regressamos ao acampamento onde jantamos e dormimos em redes. A meio da noite cai uma chuvada...
No dia seguinte, depois do pequeno almoco, regressamos rio abaixo ate Canaima onde, da parte da tarde, fizemos um passeio onde passamos por baixo do Salto El Sapito e fomos ate ao Salto El Sapo, quedas de agua que se encontram proximas. Subimos a cascata e dai fomos ver mais 4 Saltos que se precipitam sobre a Lagoa de Canaima. No dia seguinte fizemos uma visita a povoacao de Canaima e depois de almocar voltamos a Ciudad Bolivar onde, a noite, apanhei o autocarro para Santa Elena de Uairen, onde me encontro.

Para se rirem um bocado:
O anuncio de televisao
Como estava a ficar com pouca roupa lavada, e porque tambem os bolivares ja nao abundam (nao esquecer a agravante do cambio e de como nao se devem fazer levantamentos de ATMs na Venezuela), decidi depois do almoco do segundo dia, e antes da visita aos Saltos, fazer como os locais e ir para a lagoa lavar o que precisava.
Arranjei uma rocha mais ou menos lisa, dentro de agua, ajoelhei e comecei a lavar a roupa qual lavadeira de Canecas, com a diferenca que tinha uma bela queda de agua como pano de fundo. De vez em quando fazia uma pausa para me refrescar e ir dar um mergulho, outras vezes ia sentar-me a sombra, de modo a que a roupa ficasse com o cheiro do sabao - e verdade, estou a lavar a roupa com o classico sabao azul & branco, sabao macaco para os entendidos! Foi pena nao ter fotografias porque o cenario em si era muito bonito, digno de um anuncio de televisao. Para melhorar, e este pormenor e que me fez escrever este bocado, estava eu a terminar a lavagem e a preparar o enxaguamento final quando, com um voo aleatorio e incerto como so elas conseguem ter, se aproxima uma borboleta e se vai pousar exactamente num par de boxers acabados de lavar. Tento agarra-la, levanta voo, mas continua em razias a roupa. La a consigo enxotar com agua e la acabo a lavagem. De qualquer maneira, e enquanto estive a terminar e guardei a roupa para a levar para cima para a ir pendurar, a pequena borboleta continuou por ali a esvoacar. Parecia mesmo um anuncio ao sabao. E o cheiro tao tradicional e a roupa tao bem lavada que ate chama as borboletas...

O nosso transporte, um Cessna de 5 lugares + 1 para o piloto
A terra dos Tepuys
Salto El Sapo e El Sapito, junto a Canaima
Alguns dos tepuys por que passamos a caminho do Salto del Angel
A primeira imagem do Salto del Angel

E foi na base desta cascata que nos tivemos a banhar...
Esta foi tirada na manha do dia seguinte. Nao esta espectacular???...
O sitio do acampamento. E nas cordas penduradas nas vigas que se atam as redes
Lagoa de Canaima - foi aqui que estive a lavar a roupa
Dentro do Salto Hacha
Salto El Sapo

Gelataria Comoroto

Algumas fotos da gelataria Coromoto, com os seus mil e um sabores, muitos dos quais insolitos.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

I'm not dead... I feel fine...

E passaram quase 20 dias desde o ultimo post.

A verdade e que ao principio nao aconteceu nada digno de registo.

Depois quando aconteceu, estive numa correria...resumindo: Passei o Natal em Tamarindo, uma praia da Costa Rica voltada para o Oceano Pacifico. Fui adoptado pelos donos do hostal onde estava. Era de uma familia argentina que, com alguns amigos, me convidaram para uma ceia tipica: um grande naco de carne assado na brasa, rum e muita salsa. Depois do jantar, houve troca de prendas entre o pessoal da pousada.

Dai fui ate ao vulcao Arenal que, depois do que vi na Guatemala, me desiludiu um pouco.

Segui para San Jose (capital da Costa Rica) que e uma cidade cujo centro historico e relativamente pequeno, e que fora do centro historico nao tem nada que ver, mesmo assim, valeu a pena a visita. So um apontamento: as prostitutas em San Jose sao muito simpaticas. Fiquei num bairro afamado pela prostituicao que tem e quando fui para Porto Viejo (ver abaixo), tive que apanhar um autocarro as 6h da manha, o que implicou sair um bocado mais cedo do hostal. A verdade e que quando eu passava na rua, de mochila as costas, cumprimentavam-me e desejavam-me um feliz ano novo.

Proxima paragem: Porto Viejo de Talamanca - passagem de ano. Novamente praia, mas desta vez para o Mar das Caraibas. Fui-me encontrar com uns amigos portugueses que estao a trabalhar nos EUA, e que tinham ido para o Panama passar o Natal a surfar e a fazer praia. Tambem aqui tudo se passou sem incidentes, muita festa, algum rum e um mergulho no mar por volta da meia noite.

Transferencia para o Panama, directamente para a Cidade do Panama onde andei a procura de veleiros que fizessem a travessia entre o Panama e a Colombia. Para minha infelicidade parece que entre Janeiro e Abril o vento e o mar, nas Caraibas, estao mais fortes, pelo que menos capitaes fazem a viagem. Imaginem: cheguei a Cidade do Panama no dia 2 de Janeiro e o proximo barco saia apenas no dia 13, mas mesmo esse ja estava completamente esgotado. Por isso ou ficava pelo menos 10 dias a espera (a passear pelo Panama), a pagar comida e alojamento e depois ainda tinha que pagar o barco o que, actualmente, nao fica por menos de 350 dolares (o que, com mais 10 ou 15 dias de espera subia a fasquia para os 500 dolares), ou entao, fazia o que tive que fazer, comprei um voo ate Cartagena - Colombia, por 160 dolares.

Cartagena de Indias. Espectacular. Uma cidade com um centro historico colonial grande, bem cuidado, com um grande ambiente, com muitos bares de salsa. Basicamente foi no centro historico que fiquei e este e muito bonito. E uma cidade muito fotogenica, em que em cada esquina apetece tirar 20 fotografias. Tem tambem muitas pracas e um castelo que vale a pena visitar. Dificil mesmo foi arranjar alojamento! Estava tudo esgotado... Agora e a epoca alta deste lado do mundo. Ate Fevereiro sao as ferias de verao, por isso tudo o que era alojamento estava completamente esgotado.

Depois de Cartagena fui ate Mompox numa epopeia que envolveu apanhar um bus ate ao terminal de autocarros, e dai outro ate (perto de, vim eu a descobrir mais tarde) Manguegue. Saimos ao pe de um rio e dai tivemos que atravessar numa lancha ate Manguegue, que ficava a uns 20 minutos. Depois tive que apanhar um taxi colectivo (exactamente, um taxi, com os seus 4 passageiros, e a bagagem onde e como couber - principalmente atada da parte de fora da mala do carro) ate El Puente e porque? Porque (acho que nao foi noticiado em Portugal, mas) com as chuvadas que cairam por volta de Novembro (e que afectaram principalmente a Colombia, Costa Rica e Panama), a ponte caiu. Ja estavam a construir uma nova, mas ainda nao estava terminada. Por isso, nova lancha para atravessar o rio e, do outro lado, novo taxi colectivo ate Mompox. Portanto sai por volta das 8h da manha de Cartagena e cheguei por volta das 16h30 a Mompox. Nao esta mal...

Mompox e uma vilazita muito calma, onde o passatempo preferido e baloicar nas cadeiras de baloico, ao fim de tarde. Confesso que tambem eu experimentei e realmente, ficar a olhar para o rio a passar vagaroso, com a selva em pano de fundo e a lua cheia a subir no ceu, consegue ser bastante relaxante. Vila de estilo colonial, com cerca de 8 igrejas, Mompox foi em tempos um importante ponto de comercio. No entanto, diz o povo, que o actual alcaide nao tem sabido investir bem o dinheiro que chega e por isso nos ultimos anos viu perder parte da sua beleza.

Depois de Mompox, nova maratona para chegar ate Merida, Venezuela. Apanhar um taxi colectivo as 10h da manha que, desta vez, assumia a forma de uma pick-up, e ir a acelerar por estradas esburacadas e sem alcatrao ate chegar-mos a El Banco. No caminho ainda tivemos que apanhar um ferry para atravessar um rio. Chegada a El Banco cerca das 13h com uma apreciavel camada de po em cima! Esperar ate cerca das 15h30 pelo autocarro que me iria levar ate Cucuta, a cidade fronteira com a Venezuela. Desta parte so registo que, entre as minhas sonecas intermitentes, houve uma vez em que acordo com um certo desconforto, seriam umas 23h. Olho pela janela que estava molhada: tinha estado a chover, mas ja tinha parado. Passo a mao pela perna e vejo que estava toda molhada. Parece que os parafusos que seguram as cortinas do autocarro ao tecto nao vedam muito bem e estava uma goteira em cima de mim. Mesmo tendo parado de chover, ainda consegui apanhar com mais algumas gotas. Apercebi-me que outros passageiros tambem sofriam do mesmo mal. Enquanto isso, do lado de fora da janela, no meio da noite iluminada apenas pelos vestigios dos farois e pela lua cheia, conseguia notar o precipicio que se deparava a alguns centimetros do meu lado esquerdo. Numa estrada de terra batida em que o alcatrao tinha sido lavado, a passar por pontes estreitas em curvas que, por vezes, o autocarro tinha que fazer marcha-atras para poder continuar, com bastantes buracos que faziam o autocarro balancar de um lado para o outro na estrada... acreditem que ja tive viajens mais tranquilas. Finalmente la chegamos ao terminal de autocarros de Cucuta, cerca das 4h da manha. Um apontamento sobre a Colombia. Ao contrario do que pensava, nao tive qualquer problema com inseguranca e nos sitios onde fiquei, apenas Cartagena e Mompox, era tudo muito tranquilo. Ok, e preciso ter cuidado especialmente a andar a noite, ha que ser esperto, mas mesmo assim, foi bastante pacifico. Confesso que, hoje em dia, o problema da inseguranca e mais fama (relacionado com as FARC e os paramilitares) do que proveito. Mesmo os colombianos referem que ha 5 anos era impensavel ir para certas zonas, ou andar nas estradas a noite, e que agora ja se pode fazer. Mesmo o famoso Hiato de Darien comeca a parecer algo transitavel nos dias que correm (embora eu nao tivesse muita vontade de experimentar). Pena nao ter programado ficar mais tempo na Colombia. Valia a pena conhecer um pouco mais e melhor o pais principalmente a costa na direcao da Venezuela e a estrada que passa por Bogota e que liga ao Equador. Continuando: estou em Cucuta, troco o meu dinheiro. E apanho um autocarro que me deixe junto a fronteira para carimbar o passaporte.

Nota para quem viaja para a Venezuela: o cambio e pessimo. Ha um sistema de cambio oficial, estipulado pelo Estado em que o dolar vale pouco mais do que 2 mil bolivares - Bol. (ou 2 bolivares fortes - Bol.F., e o mesmo). Este cambio e o que se obtem ao cambiar, oficialmente, dinheiro nas casas de cambio, bancos, ou ao levantar dinheiro num ATM. A alternativa: mercado negro, onde o dolar pode valer cerca de 5 Bol.F., mais do dobro portanto. Por isso mais vale levar dinheiro e trocar na rua.

Carimbar passaporte, atravessar a pe a ponte que separa os dois paises, carimbar no lado venezuelano em San Antonio de Tachira e como daqui os autocarros que vao para Merida saem so as 15h, e eram cerca das 10h, o melhor que tenho a fazer e apanhar um autocarro para San Cristobal e daqui outro para Merida. Chego a Merida por volta das 16h00. Resumindo: Mompox - Merida em cerca de 30 horas.... esta a ficar melhor!

Entretanto estou em Merida e ja estive a dar uma volta pela cidade. Fui a uma padaria de um portugues e ao contrario do que um casal de brasilerios me tinha dito, nao achei nada de especial. Depois fui a uma geladaria, tambem de um portugues, que tem o record do guiness com maior numero de sabores de gelados, mais de 900. Comi 4: milho doce, sangria, gengibre e queijo e experimentei outros 4: miss venezuela, mantecado, salmao e feijao preto. Mnham mnham. No caso de alguem estar interessado, o senhor abriu com um filho uma geladaria semelhante em Portugal, em Santa Maria da Feira, chama-se Coromoto. O meu final de tarde foi a falar de politica, em como a grande maioria dos venezuelanos estao descontentes com o Hugo Chavez, em como ele esta a dar cabo do turismo e do pais, em como enganou o povo, e em como vai tentar arranjar maneira de aldrabar o sistema de modo a alterar a constituicao e permitir-se ser reeleito ilimitadamente, mesmo tendo recentemente perdido um referendo que fez sobre este tema.

Andei a pesquisar excursoes para Catatumbo, um interessante fenomeno atmosferico que se manifesta na presenca de raios e relampagos, sem trovoes. Fica ao vosso criterio pesquisar mais sobre isso. E tambem para ir ate ao Salto del Angel, as maiores quedas de agua do mundo, com quase 1km de altura. O que se passa e que tanto para um como para o outro, a melhor alturas para visitar e na epoca das chuvas e neste momento o verao ja comecou a cerca de um mes, por isso mesmo as cataratas, nao teem um caudal significativo de agua e o rio ate la chegar e mais pedra do que agua (o que significa subir a pe e nao de barco)...